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Rio de Janeiro tem 6 mortes e quase 200 quedas de árvore após temporal

Árvore caída puxou a fiação na Rua Viúva Lacerda, no Humaitá — Foto: Marcos Serra Lima/G1

Dia na cidade foi de resgatar vítimas, limpar sujeira e contar perdas. Avenida Niemeyer, onde encosta deslizou sobre um ônibus, continua bloqueada.


A tempestade que atingiu o Rio de Janeiro na noite de quarta-feira (6) deixou ao menos seis mortos. A chuva fortíssima, acompanhada de ventania, causou apagões, derrubou árvores, alagou vias e fechou vias, entre elas a Avenida Niemeyer, onde uma encosta deslizou sobre um ônibus. Duas pessoas morreram no local. Em outro ponto da avenida, mais um trecho da ciclovia Tim Maia desabou. A via continua bloqueada nesta quinta-feira (7).

Outras quatro pessoas morreram: uma na Rocinha (Zona Sul), uma no Vidigal (Zona Sul) e duas em Barra de Guaratiba (Zona Oeste). Na Rocinha e em Guaratiba, houve deslizamentos. No Vidigal, um muro caiu.

O ônibus soterrado na Avenida Niemeyer foi retirado por volta das 15h desta quinta, com a parte dianteira destruída. Duas retroescavadeiras foram usadas nos trabalhos, que duraram 14 horas. O veículo ia do Centro para Campo Grande, na Zona Oeste. O motorista conseguiu se salvar.

Até as 22h, a Avenida Niemeyer continuava interditada nos dois sentidos, sem previsão de reabertura. A via é uma das principais ligações entre as zonas Sul e Oeste da cidade.

Também seguiam interditas até por volta das 23 horas as seguintes vias:


Mergulhões na Barra da Tijuca: os dois sentidos da Avenida Ayrton Senna e os dois da Avenida Armando Lombardi

Estrada dos Bandeirantes, sentido Taquara, na altura do Condomínio Rota do Sol

Avenida Visconde de Albuquerque, sentido Jardim Botânico, altura da Praça Sibélius

Estrada do Joá, nos dois sentidos, na altura da Rua Gabriel García Moreno

Estrada das Canoas, altura do número 813, nos dois sentidos.

Sem energia


De acordo com a assessoria de imprensa da Light, 1,5% de consumidores ainda estavam sem energia até por volta das 23 horas. O percentual corresponde a 60 mil imóveis. A light informou ainda que a região de Jacarepaguá (Pechincha, Tanque, Freguesia) é a mais afetada do Rio.

Em entrevista coletiva no fim da tarde, o prefeito Marcelo Crivella afirmou que as encostas na Avenida Niemeyer estão sob monitoramento com helicópteros e drones. Ele disse ainda que, apesar dos alertas que foram feitos à população, a extensão da tragédia não era prevista: "Tempestade que não se via há tempos".

O secretário municipal da Casa Civil, Paulo Messina, afirmou que houve 186 quedas de árvore. A cidade teve ainda quatro deslizamentos, oito quedas de postes e 26 alagamentos.

Lama e lixo


Na Rocinha, onde a chuva caiu forte, a quarta-feira foi de muito trabalho para moradores. Eles passaram o dia tentando limpar a sujeira. Alguns perderam quase tudo o que tinham. Um deles diz ter tirado mais de 100 sacos com lama de dentro de casa.

"De repente, o muro caiu e um mar de lama, parecia um tsunami de lama... E em coisa de cinco minutos, a água subiu um metro e meio e eu só consegui tirar a minha esposa, as minhas duas filhas e o meu cachorro. Perdi tudo", disse um morador entrevistado pelo RJ2.

Na Barra da Tijuca, na Zona Oeste, uma família conseguiu escapar da enxurrada pulando a janela, mas perdeu boa parte dos móveis e eletrodomésticos. Eles haviam se mudado para a casa há apenas três meses.

"Eu não paguei nem a primeira parcela das coisas. Perdi tudo. Não sobrou nada. Nem geladeira, nem fogão, nem máquina de lavar, sofá... Eu tava com a minha filhinha de oito anos, o meu marido, e a gente conseguiu sair pela janela porque a porta não abria devido à água", contou Fernanda.

Também na Barra da Tijuca, a água invadiu o estacionamento de uma delegacia e arrastou viaturas da polícia. Dois carros foram parar em um córrego ao lado. Quando a água baixou, sobrou a lama.

No Vidigal, moradores viveram momentos de terror. "Me lembrei do que aconteceu em Brumadinho”, contou o fotógrafo Felipe Paiva, que teve a casa destruída.

“Eu estava saindo da cozinha arrastando as coisas porque a janela tinha sido destruída pelo vento e estava sendo invadida pela água. De repente, vi um clarão enorme e corri para a sala. Foi quando a casa desabou e eu fui parar no quarto. Os escombros caíram em cima de mim. Uma viga ou uma telha que impediu de eu ser totalmente soterrado”, afirmou.

Sem conseguir se mover devido ao peso dos escombros, Felipe gritou por socorro até que um vizinho o ouviu e conseguiu resgatá-lo.

Em São Conrado, na Zona Sul, cerca de 400 turistas foram retirados do Hotel Sheraton após passarem a madrugada e parte do dia sem energia e ilhados devido à interdição da Avenida Niemeyer. A recepção do hotel havia sido tomada pela água durante a noite.

Mortes


Na Barra de Guaratiba, mãe e filho morreram quando a casa da família desabou. Isabel Martins da Paes, de 56 anos, e Mauro Ribeiro da Paes, de 32, foram soterrados quando a lama desceu pela encosta onde o imóvel fica, na Estrada da Vendinha. Aureo da Paes, marido de Isabel, e Arthur Ribeiro da Paes, irmão de Mauro, ficaram feridos.

“Não deu para a gente socorrer. Não deu pra fazer mais do que eu pude”, diz Ari da Paz, parente das vítimas que também viu a própria casa ser invadida pela lama. Ele contou que, por volta das 21h50, ouviu um estalo e saiu correndo de casa para procurar abrigo. Foi então que percebeu os parentes em apuros no lamaçal.

“Foi tão rápido, só quem vive sabe o drama. Eu e meu outro irmão - e duas boas almas que apareceram na hora, que nos ajudaram, que fizeram mais do que eu fiz. Perdemos. E a perda fica só no nosso coração. E lamentar”, diz.

Durante a tarde, moradores de 5 casas interditadas em Barra de Guaratiba foram retirados do local. Eles tiveram que sair às pressas, levando em sacolas alguns pertences.

Na Avenida Niemeyer, as vítimas foram identificadas como Tamires Alves dos Santos e Mário Salles de Lucena.

Na Rocinha, uma mulher identificada como Adriana dos Santos foi soterrada após deslizamento e sofreu uma parada cardíaca. Ela chegou a ser levada para o Hospital Miguel Couto, na Gávea, mas não resistiu.

No Vidigal, uma mulher morreu após ser atingida por um muro.

Em entrevista no fim da tarde, a secretária municipal de Saúde, Bia Busch, disse que quatro pessoas feridas permanecem internadas.

Ciclovia Tim Maia


Uma parte da ciclovia Tim Maia caiu bem perto de onde outro trecho desabou em 2016, logo após a inauguração. Naquela ocasião, duas pessoas morreram. A ciclovia já estava interditada.

Segundo Crivella, o novo desabamento foi provocado por uma árvore que caiu do morro, arrastando terra. A queda anterior havia sido causada por uma onda.

O prefeito afirmou que o deslizamento de "centenas de metros cúbicos" de terra empurrou uma tubulação da Cedae, que derrubou a ciclovia. Foi o 3º problema grave na estrutura em três anos.

Resumo


A tormenta começou por volta das 20h30, quando o Rio entrou em estágio de atenção;

Às 22h15, passou-se para o estágio de crise;

Seis mortes: duas em Barra de Guaratiba, uma na Rocinha, uma no Vidigal e duas na Avenida Niemeyer;

Um novo trecho da ciclovia da Niemeyer desabou com deslizamento de terra. A via está interditada e não tem previsão de reabertura;

Houve 186 quedas de árvore no Rio, disse o secretário municipal da Casa Civil, Paulo Messina – às 18h25, segundo ele, 181 dessas ocorrências estavam "solucionadas".

Algumas derrubaram a fiação e causaram apagões;

Às 8h30 desta quinta, eram 10 pontos de alagamento nos bairros do Leblon, Barra da Tijuca, Gávea, Ipanema, Itanhangá, Botafogo e São Conrado;

Por volta das 17h30 desta quinta, já não existiam mais pontos de alagamento na cidade, segundo o Centro de Operações Rio. No total, foram 35 registros desde as 8h de quarta;

Registraram-se rajadas de 110 km/h no Forte de Copacabana, o que caracteriza tempestade violenta;

A previsão é de mais chuva nesta quinta, mas não tão forte quanto a da véspera. Entenda por que choveu tanto no Rio;

Às 16h37, seis vias estavam interditadas: Av. Niemeyer, Mergulhões da Barra da Tijuca, Estrada dos Bandeirantes, Av. Visconde de Albuquerque, Estrada do Joá e Estrada das Canoas;

Crivella decretou luto oficial de três dias pelas mortes;

O governador Wilson Witzel afirmou que várias sirenes foram acionadas em áreas de risco;

Telefones úteis: 193 (Corpo de Bombeiros), 199 (Defesa Civil, que deve ser informada sobre riscos de desabamento);

A Defesa Civil recomenda que os moradores se cadastrem no serviço gratuito de alertas via SMS. Basta enviar o CEP do imóvel para o número 40199, por mensagem de texto.

Bloqueios no trânsito


Avenida Niemeyer está interditada nos dois sentidos. Com isso, a Autoestrada Lagoa-Barra sobrecarregou. Opções: Alto da Boa Vista ou a Linha Amarela, que registraram fluxo intenso;

Grajaú-Jacarepaguá no sentido Freguesia. O sentido Grajaú está aberto;

Av. Lúcio Costa, no sentido São Conrado, altura da Praia da Reserva;

Mergulhões na Barra da Tijuca: os dois da Av. Ayrton Senna e da Av. Armando Lombardi;

Estrada dos Bandeirantes, sentido Taquara, na altura do Condomínio Rota do Sol;

Av. Visconde de Albuquerque, sentido Jardim Botânico, altura da Praça Sibélius.

Transportes


Os aeroportos Santos Dumont e Tom Jobim operam normalmente;

Metrôs, barcas e BRTs também continuam com operação normal;

O BRT chegou a interromper as atividades às 21h25, mas no fim da noite voltou a operar com intervalos irregulares;

A SuperVia tem intervalos normais, assim como as Barcas;

Algumas linhas de ônibus têm restrições, devido a interdições isoladas em ruas

Prefeito e governador falam

Ao confirmar que a chuva tinha até então causado cinco mortes, Crivella foi questionado por jornalistas se a prefeitura sabia que a tormenta seria tão forte.


"Nós previmos, os meteorologistas disseram que a chuva ia ser de moderada a forte. [...] Agora, surpreendentemente atrás daquela tempestade se formou uma outra tempestade. E essa outra tempestade ficou presa, ela não ultrapassou a Floresta da Tijuca e ela se precipitou toda na Zona Sul, sobretudo na Rocinha, no Vidigal e no Jardim Botânico", disse o prefeito.

Na entrevista coletiva do final da tarde, ele comentou a redução de investimentos.

"Para as enchentes, usamos recursos de maneira prévia. Há três meses começamos limpezas de bueiros na cidade – se não tivesse essa limpeza o resultado seria pior. O problema do Jardim Botânico, para ser resolvido, vai custar milhões de reais para a cidade, para que possamos fazer a mesma coisa que fizemos na Praça da Bandeira", afirmou o prefeito.

"A crise financeira que a cidade enfrenta é grande, tivemos queda de arrecadação e falta de empregos, além de uma dívida imensa por causa da Olimpíada. Difícil fazer investimento que gostaríamos, mas fizemos obras de contenção de encostas."

O governador do RJ, Wilson Witzel, afirmou em entrevista que "é preciso ter um plano diretor da cidade para tirar as pessoas da área de alto risco". Witzel criticou o que chamou de "ocupação desordenada".

Witzel disse que há cerca de 80 mil famílias em situação de risco, de acordo com levantamento da Defesa Civil. O governador culpou as prefeituras passadas pelo o que chamou de "abandono".

"O abandono não é de 2016 para cá, é de décadas. Pouco se fez para evitar que essas construções irregulares avançassem. O que assistimos foram décadas de abandono. Nos últimos anos se preocupou em gastar rios de dinheiro, pra favorecer especialmente a corrupção, e a população ficou desassistida", afirmou.


Aulas


A PUC-Rio informou que suspendeu todas as atividades nesta quinta-feira, por causa dos danos causados pela chuva. Equipes de emergência vão continuar no campus. Além da PUC, colégios da Gávea também não vão funcionar por causa dos estragos.

Defesa Civil


A Defesa Civil recebeu 206 chamados para vistoria em decorrência das chuvas até as 12h. Os bairros de maior demanda são: Barra da Tijuca (18 chamados), Barra de Guaratiba (12), São Conrado (11), Itanhangá (11), Vidigal (9) e Rocinha (8).

Entre as principais ocorrências estão desabamentos de estrutura, ameaças de desabamento, rachaduras e infiltração em imóveis, e deslizamento de encosta.

No Joá, Zona Oeste, diversos deslizamentos de terra ocorreram desde a noite da quarta-feira. Alguns deles aconteceram bem perto de residências da região.

Falta de luz


De acordo com a Light, no final da tarde de quinta 1,7% dos clientes que registraram falta de energia elétrica desde o começo do temporal estava com fornecimento interrompido – isso equivale a 68 mil consumidores. Do total de clientes, que tiveram falta de energia por conta do temporal, 80% já tiveram o serviço restabelecido.

Os bairros mais atingidos são Jacarepaguá, Barra e Recreio, na Zona Oeste, e Tijuca, Méier e Grajaú, na Zona Norte.

Segundo a Light, trechos da Zona Oeste como Jacarepaguá, Barra da Tijuca, Recreio e Campo Grande, e na Zona Norte, como na Tijuca, Méier e Grajaú foram os mais atingidos.

De acordo com a concessionária, ventos muito fortes provocam queda de objetos sobre a rede, galhos de árvores e árvores inteiras, dificultando os reparos.

O que é estágio de crise?


Indica que, pelo menos, uma grave ocorrência ou um evento inesperado de grande porte está causando algum tipo de transtorno em uma ou mais regiões da cidade. Ou ainda um temporal que eleve o índice pluviométrico e o risco de deslizamento nas encostas.

G1 Rio

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