Pesquisa da UFMG aponta riscos de carne crua como alimento para cachorros

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Ao seguir a tendência de adotar dietas consideradas mais naturais para os animais de estimação, muitos tutores não imaginam que a alimentação baseada em alimentos crus oferece risco tanto aos bichinhos quanto aos humanos. Uma pesquisa do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva da UFMG encontrou bactérias patogênicas em fezes de animais que se alimentam de carne crua.

Os pesquisadores identificaram a presença de três bactérias nas fezes de cães cujas dietas incluem o alimento. Os micro-organismos, conforme explicou o professor Rodrigo Otávio Silveira Silva, coordenador da pesquisa, têm o potencial de causar infecções em humanos, desde diarreia até distúrbios sistêmicos graves, levando até mesmo à morte. Um dos patógenos encontrados foi a bactéria Salmonella spp, conhecida por provocar intoxicação alimentar. As outras duas bactérias foram a Escherichia coli patogênicas e a Clostridium difficile.

Conforme contou Silva, a pesquisa durou cerca de dois anos e surgiu com a observação de estudos sobre o tema que foram publicados no exterior. "Conversando com alunos da graduação em Veterinária, observei que muitos deles tinham essa ideia de que oferecer carne crua aos cães seria benéfico, ao contrário do que já havia sido publicado em outros países, então decidimos estudar essa questão aqui no Brasil e ver como a população pensa a respeito disso", detalhou.

A tendência de oferecer a carne crua como alimento foi observada na pesquisa e, conforme Silva, a maior parte dos tutores que ofereciam ração tinha a intenção de começar a oferecer carne crua, e entre os que já alimentavam os animais com ela, a maioria havia começado há menos de seis meses. "É uma prática relativamente recente e com tendência de crescimento, isso porque existe também essa onda de tornar a alimentação de forma geral mais natural, mais crua, mas não existe nenhum estudo científico publicado que comprove os benefícios de uma dieta assim", explicou.

Perigos

O pesquisador que coordenou a pesquisa atribuiu a adoção da dieta com carne crua a uma associação dos cães aos lobos e animais silvestres, comumente feita pelo senso comum. Essa comparação é errada porque, segundo ele, um lobo vive em um ambiente sem contato com humanos, no qual as fezes dele são parte do ciclo da natureza. Diferente dos cachorros, que vivem entre humanos e espalham as bactérias vindas das fezes por todo o ambiente. "Os cães se lambem, lambem o dono, se sentam em camas ou mesmo no chão da casa, e esse contato espalha os micro-organismos que podem fazer mal tanto aos animais quanto aos donos", contou.

O entendimento do cão como um animal carnívoro também é um erro comum, conforme contou o professor. De acordo com ele, há mais de 10 mil anos os cães vivem em contato com os humanos e, portanto, já podem ser considerados onívoros.

Além dos malefícios sanitários, pensar na dieta baseada em carne e vegetais crus como natural e saudável também pode trazer prejuízos nutricionais aos cães. Segundo Silva, a maioria dos entrevistados que dão carne crua como alimento natural também entra com algum tipo de suplemento vitamínico, o que ele considera incoerente. "A ração é o melhor caminho para a alimentação dos cães e, hoje, o mercado oferece vários tipos diferentes que atendem qualquer necessidade do animal, então é mais seguro e até mesmo mais barato usar um alimento que certamente vai atender às demandas nutricionais do animal", declarou.

Raquel Ribeiro, professora de medicina das Faculdades Promove e Kennedy, também aponta os riscos da adoção de dietas baseadas em carne crua, destacando ainda que é necessário saber a procedência do alimento para evitar problemas para a saúde do animal. "Temos hoje esse advento das dietas naturais, mas é muito importante que sejam avaliadas tanto a procedência quanto a questão nutricional dos alimentos, o que deve ser feito por um veterinário especialista", afirmou.

Pode ou não pode?

Raquel deu alguns exemplos de cuidados que os tutores precisam ter na hora de alimentar os animais. A veterinária, que é doutora em medicina preventiva, aponta os perigos de dividir o alimento humano com os pets. "Comidas muito condimentadas fazem mal para os animais, e, sendo assim, uma prática bastante comum que é alimentar os cães com restos das refeições humanas pode ser bem prejudicial", aconselhou. Os riscos de oferecer alimentos da dieta humana para os animais vão desde obesidade, intoxicações até mesmo a morte.

Outros alimentos prejudiciais são chocolates e frutas ácidas, mas os bichinhos podem comer vegetais como cenoura, por exemplo.

Pesquisa

Os estudiosos analisaram as fezes de 60 animais que se alimentam de carne crua e de 192 que comem ração e avaliou o perfil de 400 tutores de cães sobre o que eles pensam a respeito da alimentação de seus animais. Os entrevistados, moradores de Belo Horizonte e da Região Metropolitana, foram divididos em dois grupos: o dos que oferecem ração para os cães e o dos que servem carne crua como base da dieta de seus animais.

A reação dos tutores aos resultados da pesquisa não foi das melhores, segundo o professor. Ele contou que chegou a receber visitas de tutores que questionaram se o estudo havia sido pago por fábricas de ração, o que, nas palavras dele, "vem junto dessa onda de colocar em cheque o que é dito pela ciência, as pessoas usam muito a internet e não procuram um veterinário para indicar o que é melhor para o animal".

*Com UFMG.

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